Tabela de IRS para reformados: como se lê e quanto retém
Um reformado que vá à procura da sua retenção nas tabelas do IRS encontra quase sempre a tabela errada. As pensões têm quatro tabelas próprias, com escalões próprios e uma regra própria para os dependentes, e em nenhum sítio isso aparece explicado ao lado do número.

Resposta rápida
As pensões são retidas pelas tabelas viii a xi do Despacho n.º 233-A/2026, e não pelas tabelas i a iii do trabalho dependente. Uma pensão até 920 € por mês não tem retenção; com deficiência de 60 % ou mais o limite sobe para 1 816 € ou, no casado único titular, 2 257 €. A fórmula é pensão vezes a taxa marginal máxima menos a parcela a abater. As tabelas das pensões não têm coluna por dependente: cada dependente acrescenta 34,29 €, 21,43 € ou 42,86 € à parcela a abater, conforme a situação, pelo n.º 5, al. c) do Despacho. A redução de um ponto percentual por ter três ou mais dependentes não se aplica às pensões. Até cerca de 2 681 € por mês a tabela das pensões retém menos do que a do salário; acima disso retém mais. E uma pensão não desconta para a Segurança Social, pelo que o líquido é maior do que o de um salário igual.
Onze tabelas, e só quatro são suas
O Despacho n.º 233-A/2026, de 6 de janeiro, aprova as tabelas de retenção na fonte que vigoram desde 1 de janeiro de 2026 no Continente1. São onze, e o n.º 1 divide-as por alíneas que raramente aparecem citadas: as alíneas a) e b) aprovam as tabelas i a vii, «aplicáveis aos rendimentos do trabalho dependente», e as alíneas c) e d) aprovam as quatro últimas, «aplicáveis a pensões, com exceção das pensões de alimentos».
A escolha entre as quatro depende de duas coisas e de mais nada:
- Tabela viii: não casado, ou casado com dois titulares, sem deficiência.
- Tabela ix: casado, único titular, sem deficiência.
- Tabela x: não casado ou casado dois titulares, com deficiência.
- Tabela xi: casado, único titular, com deficiência.
As tabelas x e xi servem também os deficientes das Forças Armadas abrangidos pelos Decretos-Leis n.os 43/76 e 314/90, que têm nelas uma coluna própria.
A fórmula é a do n.º 3, alínea b) do Despacho: pensão mensal vezes a taxa marginal máxima do escalão, menos a parcela a abater desse escalão, nunca abaixo de zero. É a mesma forma que as tabelas do trabalho dependente usam, e é a única coisa que as duas famílias têm em comum sem ressalvas.
A partir de quanto é que a pensão desconta
Nas tabelas viii e ix o primeiro escalão vai até 920 € e tem taxa de 0 %. Abaixo desse valor não há retenção nenhuma. O número não é uma benesse dos pensionistas: é o mesmo limiar das tabelas do trabalho dependente, e coincide com a remuneração mínima mensal garantida.
Onde o regime muda de escala é na deficiência. Com uma incapacidade permanente igual ou superior a 60 %, aplica-se a tabela x ou a xi, e o primeiro escalão passa a ir até 1 816 € no não casado ou casado dois titulares e até 2 257 € no casado, único titular1. É praticamente o dobro e mais de duas vezes e meia o limiar comum, respetivamente, e é a diferença mais consequente entre as quatro tabelas.
Convém dizer o que «não ter retenção» significa. A retenção na fonte é um adiantamento por conta do imposto do ano, não o imposto. Uma pensão abaixo do primeiro escalão não é adiantada mensalmente, e o resultado final apura-se na declaração anual como para toda a gente.
Os dependentes entram por uma regra, não por uma coluna
Quem abre lado a lado uma tabela do trabalho dependente e uma tabela de pensões nota uma ausência: as tabelas i, ii e iii têm uma coluna chamada «parcela adicional a abater por dependente» e as tabelas viii e ix não têm coluna nenhuma para dependentes.
Isso leva muita gente a concluir que os filhos não contam. Contam. O que acontece é que a regra vive fora da tabela, no n.º 5, alínea c) do Despacho: «nas situações a que se referem as tabelas n.os viii a xi, quando existirem dependentes a cargo, é adicionado à parcela a abater, por cada dependente, o valor de 42,86 €, no caso de casado, único titular, o valor de 21,43 €, no caso de casado, dois titulares, e o valor de 34,29 €, no caso de não casado»1.
Os montantes coincidem com os das colunas do trabalho dependente. O mecanismo é que é outro, e é a razão pela qual a leitura direta de uma tabela de pensões nunca mostra o efeito dos filhos. A alínea seguinte trata dos deficientes das Forças Armadas, com 18,19 € na tabela x e 36,38 € na tabela xi, esses sim numa coluna própria.
A regra dos três dependentes não chega a quem está reformado
A alínea h) do n.º 5 do Despacho concede «uma redução de um ponto percentual à taxa marginal máxima correspondente ao escalão» a quem tenha três ou mais dependentes. Vale a pena ler a quem:
«Aos titulares de rendimentos de trabalho dependente com três ou mais dependentes que se enquadrem nas tabelas previstas nas alíneas a) e b) do n.º 1 […]»1
As alíneas a) e b) são as tabelas i a vii, do trabalho dependente. As pensões estão nas alíneas c) e d) e não são abrangidas. Um pensionista com três filhos a cargo não tem, por isso, o corte que um trabalhador na mesma situação familiar tem.
Numa pensão de 1 500 €, esse ponto percentual valeria 15,00 € por mês, ou 210,00 € ao longo dos catorze pagamentos do ano. Não é o maior número desta página, mas é o único que resulta de uma exclusão expressa e que, tanto quanto conseguimos ver, não está explicado em lado nenhum ao lado das tabelas.
Mais suave em baixo, mais pesada em cima
A pergunta que quase todos os reformados fazem no primeiro mês é porque é que o desconto mudou. A resposta tem duas metades, e esta é a primeira.
Comparando a tabela viii com a tabela i, que servem exatamente a mesma situação familiar, as taxas marginais coincidem em quase todas as linhas de baixo, mas as parcelas a abater das pensões são sempre maiores. O efeito é uma retenção menor: numa pensão de 1 500 € retêm-se 151,54 €, onde o mesmo valor de salário levaria 168,17 €.
A partir dos 2 361 € por mês as duas tabelas separam-se, e a das pensões passa a ser a mais dura:
| Escalão (pensão) | Tabela viii, pensões | Tabela i, trabalho |
|---|---|---|
| até 2 361 € | 34,90 % | 34,90 % |
| até 3 462 € | 43,10 % | 38,36 % |
| até 5 833 € | 44,60 % | 39,69 % |
| até 18 332 € | 50,50 % | 44,95 % |
| acima | 53,00 % | 47,17 % |
O ponto exato em que a vantagem se inverte é onde a linha dos 43,10 % cruza a dos 38,36 %, ou seja cerca de 2 681 € por mês. Abaixo desse valor uma pensão é retida mais suavemente do que um salário igual; acima dele, mais pesadamente. Numa pensão de 3 000 € retêm-se 678,26 € contra 663,14 € num salário do mesmo valor.
No par do casado único titular, tabela ix contra tabela iii, a inversão dá-se muito mais cedo, por volta dos 1 227 € por mês, porque as duas tabelas têm escalões bastante diferentes desde o início.
A segunda metade: não há Segurança Social
Uma pensão não desconta para a Segurança Social. A contribuição de 11 % existe para financiar as prestações futuras de quem trabalha, e quem já as recebe não a paga. Isto é frequentemente esquecido porque, no recibo de vencimento, os dois descontos aparecem juntos.
Vale a pena ver os dois efeitos somados no mesmo valor ilíquido de 1 500 € por mês:
| Pensão | Salário | |
|---|---|---|
| Valor ilíquido | 1 500,00 € | 1 500,00 € |
| IRS retido | 151,54 € | 168,17 € |
| Segurança Social | não tem | 165,00 € |
| Fica na conta | 1 348,46 € | 1 166,83 € |
São 181,63 € de diferença no mesmo mês, e o IRS explica apenas 16,63 € deles. A parte maior é a contribuição que deixou de existir.
Catorze pagamentos, e o mês em que recebe dois
Uma pensão do regime geral é paga catorze vezes por ano, com os montantes adicionais de julho e de dezembro. A dúvida natural é se o mês em que se recebem duas pensões é retido a uma taxa muito mais alta, como aconteceria se os dois valores fossem somados antes de procurar a linha da tabela.
Não é. O n.º 10 do Despacho manda que, nos casos em que o pagamento inclua mais do que uma remuneração, «como é o caso, designadamente, dos meses de pagamento de subsídios de férias e de Natal, as entidades pagadoras devem apresentar, em separado para cada remuneração, a taxa efetiva mensal de retenção na fonte»1. Cada pensão é retida como se estivesse sozinha.
A consequência prática é simples: o imposto adiantado no ano é catorze vezes a retenção de um mês. Naquela pensão de 1 500 €, são 21 000 € ilíquidos, 2 121,56 € de IRS retido e 18 878,44 € recebidos.
O que fica de fora, e quanto vale
Três acréscimos existem no Despacho e não estão nesta explicação nem na calculadora, porque dependem de uma opção ou de uma prova que ninguém pode presumir. Ficam aqui com o valor exato, para quem esteja numa dessas situações poder ajustar a sua parcela a abater:
- Dependente com incapacidade de 60 % ou mais (n.º 5, al. a): acrescem 84,82 € por dependente no não casado ou casado único titular e 42,41 € no casado dois titulares. Os n.os 6 e 7 permitem multiplicar esse valor até três vezes, ou até seis no casado dois titulares, mediante opção comunicada à entidade pagadora antes do pagamento.
- Cônjuge com incapacidade de 60 % ou mais (n.º 5, al. b): no casado, único titular, cujo cônjuge não aufira rendimentos das categorias A ou H, acrescem 135,71 € à parcela a abater.
- Opção por taxa superior (n.º 5, al. e, e artigo 98.º n.º 6 do Código do IRS3): pode pedir que lhe retenham a uma taxa inteira mais alta do que a devida, o que altera apenas a taxa marginal e deixa as parcelas a abater intactas.
Ficam também de fora as tabelas próprias dos Açores e da Madeira, as pensões de alimentos, que o próprio Despacho exclui das tabelas viii a xi2, e os pensionistas não residentes em território português, a quem estas tabelas não se aplicam de todo.
Onde ver o seu caso
A calculadora de IRS de pensionistas escolhe a tabela pela sua situação, aplica a regra dos dependentes e mostra a retenção mensal, o líquido, o total dos catorze pagamentos e, ao lado, o que o mesmo valor levaria como salário. Para a pensão ilíquida de onde tudo parte, use o simulador de reforma; para o aumento anual que a faz mudar todos os janeiros, a calculadora do aumento das pensões.
Erros comuns
Procurar a retenção na tabela i, ii ou iii
Essas são as tabelas do trabalho dependente. O n.º 1 do Despacho n.º 233-A/2026 separa-as por alíneas: as alíneas a) e b) aprovam as tabelas i a vii para rendimentos do trabalho dependente e as alíneas c) e d) aprovam as tabelas viii a xi «aplicáveis a pensões, com exceção das pensões de alimentos». Quem lê a linha da sua pensão numa tabela do trabalho encontra um número que não é o seu, e a diferença não é pequena: a partir dos 2 361 € por mês as taxas marginais das duas famílias de tabelas deixam de coincidir.
Somar 11 % de Segurança Social ao desconto da pensão
Uma pensão não desconta para a Segurança Social. A contribuição de 11 % é do trabalhador por conta de outrem e financia justamente a pensão futura; quem já a recebe não a paga. É por isso que, no mesmo valor ilíquido, o que fica na conta de um pensionista é maior do que o de um trabalhador, mesmo antes de olhar para a diferença nas tabelas de IRS.
Achar que os dependentes não contam porque a tabela não tem coluna para eles
Contam. As tabelas das pensões não têm a coluna «parcela adicional a abater por dependente» que as tabelas do trabalho têm, mas o n.º 5, alínea c) do Despacho manda acrescentar à parcela a abater, por cada dependente, 42,86 € no casado único titular, 21,43 € no casado dois titulares e 34,29 € no não casado. O efeito existe, vem de fora da tabela, e só se aplica se os dependentes estiverem comunicados a quem paga a pensão.
Contar com a redução de um ponto percentual por ter três filhos
Essa redução existe, mas não para pensões. A alínea h) do n.º 5 concede-a «aos titulares de rendimentos de trabalho dependente com três ou mais dependentes que se enquadrem nas tabelas previstas nas alíneas a) e b) do n.º 1», as tabelas i a vii. As pensões estão nas alíneas c) e d) e ficam de fora. Numa pensão de 1 500 € o ponto percentual valeria 15,00 € por mês, ou 210,00 € nos catorze pagamentos.
Assumir que o mês dos dois pagamentos é retido a uma taxa muito mais alta
Não é. O n.º 10 do Despacho manda que, quando o pagamento inclua mais do que uma remuneração, «como é o caso, designadamente, dos meses de pagamento de subsídios de férias e de Natal», a entidade pagadora apresente em separado a taxa efetiva de cada uma. Cada pensão é retida como se estivesse sozinha, pelo que o mês vale exatamente o dobro de um mês normal.
Perguntas frequentes
Qual é a tabela de IRS dos reformados em 2026?
A partir de que valor a pensão começa a pagar IRS?
Porque é que descontam menos da minha pensão do que descontavam do salário?
E se a pensão for alta? Continua a ser melhor?
Os meus dependentes baixam a retenção da pensão?
Em julho e dezembro recebo duas pensões. Sou retido a uma taxa maior?
Recebo pensão e ainda trabalho. Como funciona?
Leitura e calculadoras relacionadas
Fontes
- 1.Despacho n.º 233-A/2026, de 6 de janeiro: tabelas de retenção na fonte para o continente em 2026 · Diário da República, 2.ª série, n.º 3, Suplemento · consultado a 4/09/2026
- 2.Código do IRS, artigo 99.º-D: retenção sobre rendimentos de pensões · Autoridade Tributária e Aduaneira, texto consolidado · consultado a 4/09/2026
- 3.Código do IRS, artigo 98.º: retenção na fonte e a opção por taxa superior · Autoridade Tributária e Aduaneira, texto consolidado · consultado a 4/09/2026
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Thorben Rasmus Idel
Cofundador e autor
Cofundador da Calculadora Capital e autor da metodologia de todas as calculadoras e artigos. Empresário e investidor ativo, Thorben fundou a Idel Versandhandel GmbH, uma empresa de comércio internacional presente em 16 países, e investe em ações, ETF e criptomoedas. É ele quem escreve a metodologia e confirma as contas de cada página, trazendo a experiência de quem gere um negócio e investe para manter as ferramentas e as explicações próximas da forma como o dinheiro, os mercados e os impostos funcionam de facto para quem vive em Portugal.
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Nahar Geva
Cofundação e revisão independente
Cofundação da Calculadora Capital e revisão independente de todas as calculadoras e artigos. Com um percurso de empreendedorismo e de investimento ativo nos mercados, Nahar junta uma abordagem orientada por dados e por produto à experiência de investir em ações e ETF, em criptomoedas e outros ativos digitais, e ainda em finanças pessoais e imobiliário. Em cada página, Nahar revê a metodologia e confere as contas e os valores, testando se as ferramentas e as explicações resistem à forma como o dinheiro, os mercados e os impostos funcionam de facto para quem investe.
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