Carregar um Carro Elétrico
Quanto custa carregar um carro elétrico em casa e num posto, e o preço por kWh que paga de facto.
As tarifas do posto (CEME e OPC) são afixadas no posto sem IVA e variam de operador para operador: substitua os valores ilustrativos pelos que lá encontrar. O preço de casa é o da sua fatura, com IVA incluído.
O posto anuncia a energia a 0,22 €/kWh e a fatura completa sai a 0,758 €/kWh, ou seja 3,44 vezes mais. A diferença é a parcela de utilização do posto, cobrada pelo operador, mais o IVA sobre a fatura toda.
Carregar no posto custa 4,21 vezes o que a mesma carga custaria em casa, uma diferença de 20,80 € numa única sessão.
Há uma componente cobrada por minuto, pelo que o mesmo carregamento fica mais caro num carro que aceite menos potência: baixe a potência e veja o efeito.
A duração indicada é um mínimo teórico, a potência constante. Acima de cerca de 80 % de carga a potência cai, pelo que a sessão real demora mais e a componente por tempo custa mais, nunca menos.
A parcela de energia é vendida pelo comercializador (CEME) e a parcela de utilização do posto pelo operador (OPC), que são empresas distintas. A MOBI.E esclarece que a componente por kWh do operador corresponde a um serviço de utilização do ponto e não ao fornecimento de eletricidade.
Os valores não incluem as perdas de carregamento: o contador mede a energia que sai da parede e a bateria guarda um pouco menos, pelo que o custo real por kWh útil é ligeiramente superior.
A conta que a calculadora faz
Parte da energia que vai mesmo entrar na bateria, e não da capacidade total: a energia da sessão é a capacidade multiplicada pela diferença entre o estado de carga final e o inicial. Uma bateria de 60 kWh carregada dos 20 % aos 80 % recebe 36 kWh, não 60. Depois calcula o tempo, dividindo essa energia pela potência a que o carregamento decorre, porque o tempo é uma das coisas que se paga. Em casa multiplica a energia pelo preço por kWh do seu contrato e acabou, porque em casa há um só fornecedor, um só preço e nenhum operador de posto pelo meio. No posto público faz o que a fatura faz: soma a parcela de energia, soma as três componentes possíveis da parcela do posto, e só no fim aplica o IVA ao total. No fim divide o total pela energia carregada, e é esse número, o preço efetivo por kWh, que responde à pergunta que quase ninguém consegue responder.
Duas parcelas, duas empresas, uma fatura
A rede pública portuguesa é interoperável e isso tem uma consequência que confunde muita gente: quem lhe vende a eletricidade e quem lhe empresta o posto não são a mesma entidade, e ambos são pagos no mesmo carregamento. A MOBI.E, que gere a rede e define este modelo, descreve a fatura como a soma de três coisas. Primeiro a «parcela de energia», que é o tarifário do Comercializador de Eletricidade para a Mobilidade Elétrica, o CEME, que é a empresa com quem tem contrato e que emite a fatura. Segundo a «parcela de utilização do posto», que «corresponde ao tarifário dos Operadores de Pontos de Carregamento (OPC), relativo ao serviço de disponibilização do posto de carregamento», e que é cobrada na fatura do CEME e depois transferida para o operador. Terceiro os impostos. A vantagem do modelo é real, e a MOBI.E sublinha-a: recebe uma fatura só, com tudo discriminado, seja qual for o posto que use. A desvantagem é que o preço que vê afixado não é um preço, são dois.
O achado: o mesmo kWh é cobrado duas vezes, com dois nomes
Esta é a frase que muda a conta, e é da própria MOBI.E, nas suas perguntas frequentes, a propósito das três componentes que um operador pode combinar: «De salientar que a componente do custo por unidade de energia corresponde a um serviço (de utilização do ponto) e não ao fornecimento de eletricidade, que é sempre responsabilidade dos Comercializadores.» Leia-a devagar. O operador do posto também pode cobrar em euros por kWh, mas o que está a vender com essa unidade não é eletricidade, é o direito de usar o equipamento. Por isso os dois valores somam-se em vez de se substituírem. Um condutor que veja «0,22 €/kWh» e multiplique pelos 36 kWh que precisa chega a 7,92 € e vai embora descansado; a fatura junta-lhe a componente por kWh do operador, a componente por minuto, uma eventual tarifa de ativação, e aplica IVA a tudo isso. No exemplo desta página o resultado são 27,28 €, ou seja 0,758 € por cada kWh, três vezes e meia o número que estava afixado. Não é um erro de ninguém nem uma cobrança indevida: é a estrutura do preço, e está publicada. Só não está publicada num sítio onde se leia antes de carregar.
A componente por minuto faz do seu carro um fator de custo
É a componente mais fácil de ignorar e a que produz as surpresas maiores, porque não depende do que leva, depende do tempo que demora a levá-lo. A MOBI.E diz que as tarifas dos operadores «podem variar ao longo do dia, ou dentro do mesmo posto serem diferentes em função da potência dos pontos de carregamento», e que uma das três variáveis é o custo por minuto. Junte-lhe um facto do lado do carro: cada modelo tem um limite próprio de potência que aceita, em corrente alternada e em corrente contínua. Um carro limitado a 7,4 kW ligado a um poste de 22 kW não carrega a 22 kW, carrega a 7,4 kW, e ocupa o posto três vezes mais tempo para levar exatamente a mesma energia. Se o operador cobrar por minuto, esse condutor paga três vezes a componente de tempo do condutor ao lado, pela mesma eletricidade. É por isso que esta calculadora pergunta a potência, e é por isso que a potência aparece no resultado. Repare ainda que o tempo que ela mostra é um mínimo teórico: acima de cerca de 80 % de carga a potência cai bastante, de modo que uma sessão real demora mais do que a conta indica e a componente por minuto custa mais, nunca menos.
O IVA incide sobre a fatura toda
Convém dizê-lo em separado porque quase todas as contas de cabeça o esquecem: o imposto não se aplica apenas à eletricidade, aplica-se também ao serviço do posto. A MOBI.E escreve-o sem margem para dúvida: «O Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA), atualmente, é de 23 % no Continente, 22 % na Madeira e 16 % nos Açores, e é aplicado em toda a fatura.» A taxa do Continente é a taxa normal do artigo 18.º n.º 1 alínea c) do Código do IVA, e as taxas mais baixas das regiões autónomas existem porque o n.º 3 do mesmo artigo permite às Assembleias Legislativas dos Açores e da Madeira «fixar taxas diminuídas do IVA». No exemplo desta página o IVA sozinho são 5,10 €, dos quais quase dois terços incidem sobre a parcela do posto e não sobre a energia. Como as tarifas afixadas nos postos são apresentadas sem IVA, é uma parte do preço que só aparece no fim.
Em casa a conta é outra, e a diferença é grande
Em casa não há operador de posto, não há componente por minuto e não há tarifa de ativação: há o seu contrato de eletricidade e o preço por kWh que já paga por tudo o resto. Por isso a calculadora pede esse preço com o IVA já incluído, tal como o vê na fatura, e limita-se a multiplicar. No exemplo, os mesmos 36 kWh custam 6,48 € em casa e 27,28 € no posto, uma diferença de 20,80 € numa única carga. Duas ressalvas honestas, porque a conta caseira é simples mas não é gratuita. A primeira é que o contador conta a energia que sai da parede e a bateria guarda menos do que isso: há perdas no carregamento, sobretudo em corrente alternada, pelo que o custo real por kWh útil é ligeiramente superior ao que aqui aparece. A segunda é que a eletricidade doméstica em Portugal tem uma taxa reduzida de IVA sobre uma parte do consumo mensal em contratos de potência baixa, mas essa parte é atribuída ao consumo total da casa e não ao carro, pelo que não é derivável dos dados que esta página pede. Fica explicada, e não aproximada.
Como usar isto sem inventar números
As tarifas variam de posto para posto e é assim de propósito, porque cada operador fixa a sua. A MOBI.E é clara: «Os OPC são livres de estabelecer as tarifas OPC que entenderem» e «o tarifário desta parcela está sempre publicitado no posto». Os valores que esta calculadora traz preenchidos são ilustrativos e servem para lhe mostrar a forma da conta, não para lhe dizer o que vai pagar. Antes de carregar, leia no posto ou na aplicação a tarifa do operador e o preço da energia do seu comercializador, e escreva-os aqui. A MOBI.E disponibiliza essa consulta, posto a posto, na página «Encontrar Posto». Duas coisas a procurar em particular: se existe tarifa de ativação, porque uma tarifa fixa transforma uma carga pequena num preço por kWh absurdo, e se existe componente por minuto, porque é a que depende do seu carro e não do posto.
O que esta conta não faz
Fica de fora, e é dito em vez de aproximado. As redes que não estão ligadas à MOBI.E funcionam com outro modelo, que a própria MOBI.E descreve à parte: podem cobrar uma tarifa de fidelização periódica, agregam a energia e o posto numa parcela só e acrescentam uma tarifa do prestador de serviços de mobilidade elétrica. Não é a conta desta página. Ficam de fora as perdas de carregamento e a curva de carregamento, pelas razões acima. Fica de fora a comparação com um carro a combustível, que tem calculadora própria e que é o passo seguinte natural: com o custo por 100 km que esta página devolve, o outro lado da comparação faz-se lá. E ficam de fora os custos de ter o carro que não são energia, designadamente o imposto único de circulação e o imposto sobre veículos, de que os carros 100 % elétricos estão isentos, e que também têm calculadoras próprias.
Exemplo prático
Um carro com 60 kWh de bateria e um consumo de 17 kWh/100 km é carregado dos 20 % aos 80 %, ou seja 36 kWh, o suficiente para cerca de 212 km. Num posto rápido a 50 kW isso demora 43,2 minutos. Suponha que o posto mostra energia a 0,22 €/kWh, uma tarifa de operador de 0,30 €/kWh e mais 0,08 €/minuto, sem tarifa de ativação. A parcela de energia são 7,92 €, a parcela de utilização do posto são 14,26 € (10,80 € pela componente por kWh mais 3,46 € pelos 43,2 minutos), o subtotal são 22,18 €, o IVA a 23 % são 5,10 € e o total são 27,28 €. Dividido pelos 36 kWh, pagou 0,758 € por kWh: 3,44 vezes o preço da energia que estava afixado. A mesma carga em casa, a 0,18 €/kWh com IVA, custaria 6,48 €, ou seja 20,80 € menos e um quarto do preço. Convertido para distância, são 12,88 € por 100 km no posto contra 3,06 € por 100 km em casa. Vale a pena guardar a ordem de grandeza: 12,88 € por 100 km é mais do que um carro a gasolina que faça 6 litros aos 100 a 1,80 €/litro, que gastaria 10,80 €. Carregar em casa é imbatível; carregar sempre em posto rápido pode sair mais caro do que a gasolina.
Perguntas frequentes
Quanto custa carregar um carro elétrico em Portugal?
Porque é que paguei muito mais do que o preço por kWh que estava afixado?
Carregar em casa é assim tão mais barato?
Porque é que dois carros pagam valores diferentes no mesmo posto?
O IVA aplica-se só à eletricidade?
O que é o IEC que aparece na fatura da eletricidade?
Um carro elétrico paga IUC e ISV?
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Fontes
- Custo do Carregamento: as parcelas que compõem a fatura · MOBI.E, gestor da rede de mobilidade elétrica
- Perguntas frequentes: como se estrutura a tarifa do operador do posto · MOBI.E, gestor da rede de mobilidade elétrica
- Artigo 18.º do Código do IVA: taxas do imposto · Autoridade Tributária e Aduaneira
Autor: Thorben Rasmus Idel · Revisto por: Nahar Geva · Última revisão: 2026-08-31