Quanto custa carregar um carro elétrico em Portugal
Toda a gente sabe responder ao preço da gasolina e quase ninguém sabe responder ao preço de um carregamento, e a culpa não é dos condutores. Num posto público português a fatura tem duas parcelas de duas empresas diferentes, uma delas pode ser cobrada por minuto, e o IVA incide sobre tudo. Este artigo desmonta a fatura peça a peça.

Resposta rápida
Num posto público da rede MOBI.E a fatura tem duas parcelas de duas empresas diferentes: a parcela de energia, vendida pelo comercializador, e a parcela de utilização do posto, cobrada pelo operador. A tarifa do operador pode ter três componentes ao mesmo tempo, um valor fixo por carregamento, um valor por minuto e um valor por kWh, e a MOBI.E é expressa a dizer que a componente por kWh do operador é um serviço de utilização do ponto e não o fornecimento de eletricidade. Depois disso o IVA incide sobre toda a fatura, a 23 % no Continente, 22 % na Madeira e 16 % nos Açores. O resultado é que o preço por kWh afixado é apenas uma das parcelas: num exemplo com energia a 0,22 €/kWh, tarifa de operador de 0,30 €/kWh e 0,08 €/minuto, uma carga de 36 kWh custa 27,28 € e sai a 0,758 € por kWh. A mesma carga em casa, a 0,18 €/kWh com IVA, custa 6,48 €.
Porque é que esta pergunta é tão difícil de responder
Um condutor de um carro a gasolina sabe de cor quanto custa encher o depósito. Sabe o preço por litro, sabe quantos litros leva e a conta é uma multiplicação. Quem passa para um carro elétrico espera fazer o mesmo com os kWh e descobre, quase sempre depois de pagar, que a conta não bate certo.
Não é distração. É que num posto público português o preço não é um número, são vários, e vêm de entidades diferentes. A rede nacional é gerida pela MOBI.E e é interoperável, o que quer dizer que pode carregar em postos de qualquer operador tendo contrato com um único comercializador. É uma vantagem real, e a MOBI.E sublinha-a: recebe uma fatura só, com tudo discriminado, seja qual for o posto. A contrapartida é que essa fatura tem de acomodar duas empresas, e por isso tem duas parcelas1.
As três coisas que compõem a fatura
A MOBI.E descreve a fatura que o comercializador emite como a soma de três parcelas1.
A primeira é a parcela de energia. É o tarifário do Comercializador de Eletricidade para a Mobilidade Elétrica, o CEME, que é a empresa com quem tem contrato. Dentro dela já estão as tarifas de acesso às redes de energia elétrica e o Imposto Especial sobre o Consumo de Energia Elétrica, que a MOBI.E situa em 0,001 € por kWh no Continente ao abrigo da Portaria n.º 320-D/2011. É por isso que não faz sentido somar esses valores por fora: já estão dentro do preço por kWh anunciado.
A segunda é a parcela de utilização do posto. Corresponde ao tarifário dos Operadores de Pontos de Carregamento, os OPC, «relativo ao serviço de disponibilização do posto de carregamento». O operador é o dono do equipamento e é uma empresa distinta do comercializador. Esta parcela é cobrada na fatura do comercializador e depois transferida para o operador.
A terceira são os impostos, e sobre estes a MOBI.E não deixa margem para interpretações: «O Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA), atualmente, é de 23 % no Continente, 22 % na Madeira e 16 % nos Açores, e é aplicado em toda a fatura»1. A taxa do Continente é a taxa normal do artigo 18.º n.º 1 alínea c) do Código do IVA, e as taxas mais baixas das regiões autónomas existem porque o n.º 3 do mesmo artigo permite às Assembleias Legislativas dos Açores e da Madeira «fixar taxas diminuídas do IVA»3.
O achado: o mesmo kWh é cobrado duas vezes, com dois nomes
Esta é a parte que resolve o mistério, e é a própria MOBI.E que a escreve, nas suas perguntas frequentes, a propósito das componentes que um operador pode combinar2:
De salientar que a componente do custo por unidade de energia corresponde a um serviço (de utilização do ponto) e não ao fornecimento de eletricidade, que é sempre responsabilidade dos Comercializadores.
Leia devagar. O operador do posto também pode cobrar em euros por kWh. Mas o que ele está a vender nessa unidade não é eletricidade, é o direito de usar o equipamento. Por isso os dois valores somam-se, em vez de um substituir o outro.
O condutor vê «0,22 €/kWh» afixado, multiplica pelos 36 kWh de que precisa, chega a 7,92 € e sai descansado. A fatura acrescenta-lhe a componente por kWh do operador, a componente por minuto, uma eventual tarifa de ativação, e aplica IVA a tudo isso. Não há nada de irregular nisto: é a estrutura do preço, e está publicada. Só não está publicada em nenhum sítio onde se leia antes de carregar.
As três componentes da tarifa do operador
A MOBI.E enumera-as e diz que o operador pode «combinar uma, duas ou três destas componentes»2.
| Componente | Unidade | O que faz ao preço |
|---|---|---|
| Tarifa de ativação | € por carregamento | Fixa. Penaliza desproporcionalmente as cargas pequenas |
| Custo por tempo | € por minuto | Depende do seu carro, não só do posto |
| Custo por energia | € por kWh | Soma-se ao preço da energia do comercializador |
Acrescenta ainda que as tarifas dos operadores «podem variar ao longo do dia, ou dentro do mesmo posto serem diferentes em função da potência dos pontos de carregamento», e que os operadores «são livres de estabelecer as tarifas OPC que entenderem». Não existe, portanto, um preço nacional do carregamento, e qualquer artigo que lhe dê um está a dar-lhe uma média que não é a sua.
A componente por minuto faz do seu carro um fator de custo
Esta é a componente que produz as maiores surpresas, porque não depende do que leva mas do tempo que demora a levá-lo.
Cada modelo tem um limite próprio de potência que aceita, em corrente alternada e em corrente contínua, e esse limite é do carro, não do poste. Um carro limitado a 7,4 kW ligado a um poste de 22 kW não carrega a 22 kW: carrega a 7,4 kW, e ocupa o posto cerca de três vezes mais tempo para levar exatamente a mesma energia. Se o operador cobrar por minuto, esse condutor paga cerca de três vezes essa componente do que paga o condutor ao lado, pela mesma eletricidade.
Daí duas consequências práticas. A primeira é que vale a pena saber a que potência o seu carro aceita carregar antes de escolher um posto caro por ser rápido. A segunda é que, havendo componente por minuto, deixar o carro ligado depois de terminar custa dinheiro sem lhe dar energia nenhuma.
Há ainda um pormenor técnico que joga no mesmo sentido: acima de cerca de 80 % de carga a potência cai bastante, porque a bateria a limita. Uma sessão até aos 100 % demora muito mais do que a proporção sugere, e com componente por minuto os últimos 20 % podem custar quase tanto como os primeiros 60 %. É a razão pela qual, em viagem, carregar dos 20 % aos 80 % é quase sempre a decisão mais barata.
A conta feita, com números
Tome um carro com 60 kWh de bateria, carregado dos 20 % aos 80 %. São 36 kWh, não 60, porque só se paga a fatia que entra. Num posto rápido a 50 kW isso demora cerca de 43 minutos. Suponha que o posto mostra energia a 0,22 €/kWh, uma tarifa de operador de 0,30 €/kWh e mais 0,08 €/minuto, sem tarifa de ativação.
| Linha da fatura | Valor |
|---|---|
| Parcela de energia (36 kWh a 0,22 €) | 7,92 € |
| Parcela do posto, por energia (36 kWh a 0,30 €) | 10,80 € |
| Parcela do posto, por tempo (43,2 min a 0,08 €) | 3,46 € |
| Subtotal sem IVA | 22,18 € |
| IVA a 23 % sobre toda a fatura | 5,10 € |
| Total | 27,28 € |
Divididos pelos 36 kWh, são 0,758 € por kWh, ou seja 3,44 vezes o preço da energia que estava afixado. A mesma carga feita em casa, a 0,18 €/kWh com IVA, custaria 6,48 €: uma diferença de 20,80 € numa única sessão.
Convertido em distância, com um consumo de 17 kWh/100 km, são 12,88 € por 100 km no posto contra 3,06 € por 100 km em casa. Guarde a ordem de grandeza, porque é ela que faz a decisão: 12,88 € por 100 km é mais do que um carro a gasolina que faça 6 litros aos 100 a 1,80 € por litro, que gastaria 10,80 €.
A conclusão não é que o carro elétrico é caro. É que a poupança de um carro elétrico está quase toda no sítio onde carrega. Quem carrega em casa paga cerca de um terço do combustível equivalente; quem depende exclusivamente de postos rápidos pode pagar mais do que pagava antes.
Em casa a conta é outra
Em casa não há operador de posto, não há componente por minuto e não há tarifa de ativação. Há o seu contrato de eletricidade e o preço por kWh que já paga por tudo o resto, pelo que a conta é uma multiplicação.
Duas ressalvas honestas. A primeira é que o contador conta a energia que sai da parede e a bateria guarda menos do que isso: há perdas no carregamento, sobretudo em corrente alternada, pelo que o custo real por kWh útil é ligeiramente superior ao que qualquer conta simples indica. A segunda é que a eletricidade doméstica em Portugal tem uma taxa reduzida de IVA sobre uma parte do consumo mensal em contratos de potência baixa, mas essa parte é atribuída ao consumo total da casa e não ao carro, pelo que não é derivável dos dados de um carregamento. Preferimos explicá-la a aproximá-la.
As redes que não estão ligadas à MOBI.E
Tudo o que foi dito acima descreve a rede MOBI.E. A própria MOBI.E descreve à parte o modelo das redes não conectadas, que é diferente1: pode haver uma tarifa de fidelização periódica, paga antecipadamente, que dá acesso a condições mais vantajosas; a energia e a utilização do posto aparecem agregadas numa parcela só, que pode ser cobrada em kWh, em minutos, por sessão ou numa mistura; e acresce uma tarifa do prestador de serviços de mobilidade elétrica. Se carrega numa rede dessas, a lógica de somar as parcelas mantém-se, mas os nomes e o número de linhas mudam.
O que fazer com isto
Antes de carregar, leia no posto ou na aplicação duas coisas: a tarifa do operador, incluindo se tem componente por minuto ou tarifa de ativação, e o preço da energia do seu comercializador. A MOBI.E disponibiliza a consulta posto a posto na página «Encontrar Posto», e recorda que «o tarifário desta parcela está sempre publicitado no posto»2.
Depois faça a conta com os seus números na calculadora de custo de carregamento, que devolve o total, o preço efetivo por kWh e o custo por 100 km. Para fechar a comparação com o carro que tinha antes, o outro lado faz-se na calculadora de custo de combustível.
Erros comuns
Multiplicar os kWh pelo preço da energia afixado
Esse preço é apenas a parcela de energia, a que o comercializador vende. Falta a parcela de utilização do posto, que o operador cobra e que pode ter componentes por kWh, por minuto e por carregamento, e falta o IVA, que incide sobre a soma das duas. No exemplo deste artigo essa conta de cabeça dá 7,92 € e a fatura dá 27,28 €.
Assumir que o IVA só se aplica à eletricidade
A MOBI.E escreve que o IVA «é aplicado em toda a fatura», o que inclui o serviço do posto. Como as tarifas afixadas são apresentadas sem IVA, é uma parte do preço que só aparece no fim. No exemplo são 5,10 €, dos quais quase dois terços incidem sobre a parcela do posto.
Achar que o preço depende só do posto
Depende também do carro, quando há componente por minuto. Cada modelo tem um limite de potência que aceita: um carro limitado a 7,4 kW ligado a um poste de 22 kW ocupa o posto cerca de três vezes mais tempo para levar a mesma energia, e paga cerca de três vezes essa componente.
Somar o imposto sobre a eletricidade por fora
O Imposto Especial sobre o Consumo de Energia Elétrica, que a MOBI.E situa em 0,001 € por kWh no Continente, já está dentro do preço por kWh que o comercializador anuncia, tal como as tarifas de acesso às redes. Contá-lo outra vez seria tão errado como esquecê-lo.
Comparar o custo em casa com o custo no posto sem o dizer
São duas realidades de preço muito diferentes e convém não misturar. Quem carrega quase sempre em casa e ocasionalmente em viagem tem um custo médio próximo do de casa; quem não tem lugar para carregar e depende de postos rápidos tem um custo por 100 km que pode ultrapassar o de um carro a gasolina equivalente.
Perguntas frequentes
Quanto custa carregar um carro elétrico em Portugal?
Porque é que paguei muito mais do que o preço por kWh afixado?
Quem é o CEME e quem é o OPC?
Carregar em casa é mesmo muito mais barato?
O que é a tarifa de ativação?
Um carro elétrico paga IUC e ISV?
Vale a pena mudar para elétrico só pelo custo da energia?
Leitura e calculadoras relacionadas
Fontes
- 1.Custo do Carregamento: as parcelas que compõem a fatura · MOBI.E, gestor da rede de mobilidade elétrica · consultado a 31/08/2026
- 2.Perguntas frequentes: como se estrutura a tarifa do operador do posto · MOBI.E, gestor da rede de mobilidade elétrica · consultado a 31/08/2026
- 3.Artigo 18.º do Código do IVA: taxas do imposto · Autoridade Tributária e Aduaneira · consultado a 31/08/2026
Autor / Revisto por
Autor
Thorben Rasmus Idel
Cofundador e autor
Cofundador da Calculadora Capital e autor da metodologia de todas as calculadoras e artigos. Empresário e investidor ativo, Thorben fundou a Idel Versandhandel GmbH, uma empresa de comércio internacional presente em 16 países, e investe em ações, ETF e criptomoedas. É ele quem escreve a metodologia e confirma as contas de cada página, trazendo a experiência de quem gere um negócio e investe para manter as ferramentas e as explicações próximas da forma como o dinheiro, os mercados e os impostos funcionam de facto para quem vive em Portugal.
Revisto por
Nahar Geva
Cofundação e revisão independente
Cofundação da Calculadora Capital e revisão independente de todas as calculadoras e artigos. Com um percurso de empreendedorismo e de investimento ativo nos mercados, Nahar junta uma abordagem orientada por dados e por produto à experiência de investir em ações e ETF, em criptomoedas e outros ativos digitais, e ainda em finanças pessoais e imobiliário. Em cada página, Nahar revê a metodologia e confere as contas e os valores, testando se as ferramentas e as explicações resistem à forma como o dinheiro, os mercados e os impostos funcionam de facto para quem investe.
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