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Calculadora Capital

Quanto custa carregar um carro elétrico em Portugal

Toda a gente sabe responder ao preço da gasolina e quase ninguém sabe responder ao preço de um carregamento, e a culpa não é dos condutores. Num posto público português a fatura tem duas parcelas de duas empresas diferentes, uma delas pode ser cobrada por minuto, e o IVA incide sobre tudo. Este artigo desmonta a fatura peça a peça.

9 min de leituraRevisto a Por Thorben Rasmus IdelRevisto por Nahar Geva

Resposta rápida

Num posto público da rede MOBI.E a fatura tem duas parcelas de duas empresas diferentes: a parcela de energia, vendida pelo comercializador, e a parcela de utilização do posto, cobrada pelo operador. A tarifa do operador pode ter três componentes ao mesmo tempo, um valor fixo por carregamento, um valor por minuto e um valor por kWh, e a MOBI.E é expressa a dizer que a componente por kWh do operador é um serviço de utilização do ponto e não o fornecimento de eletricidade. Depois disso o IVA incide sobre toda a fatura, a 23 % no Continente, 22 % na Madeira e 16 % nos Açores. O resultado é que o preço por kWh afixado é apenas uma das parcelas: num exemplo com energia a 0,22 €/kWh, tarifa de operador de 0,30 €/kWh e 0,08 €/minuto, uma carga de 36 kWh custa 27,28 € e sai a 0,758 € por kWh. A mesma carga em casa, a 0,18 €/kWh com IVA, custa 6,48 €.

Porque é que esta pergunta é tão difícil de responder

Um condutor de um carro a gasolina sabe de cor quanto custa encher o depósito. Sabe o preço por litro, sabe quantos litros leva e a conta é uma multiplicação. Quem passa para um carro elétrico espera fazer o mesmo com os kWh e descobre, quase sempre depois de pagar, que a conta não bate certo.

Não é distração. É que num posto público português o preço não é um número, são vários, e vêm de entidades diferentes. A rede nacional é gerida pela MOBI.E e é interoperável, o que quer dizer que pode carregar em postos de qualquer operador tendo contrato com um único comercializador. É uma vantagem real, e a MOBI.E sublinha-a: recebe uma fatura só, com tudo discriminado, seja qual for o posto. A contrapartida é que essa fatura tem de acomodar duas empresas, e por isso tem duas parcelas1.

As três coisas que compõem a fatura

A MOBI.E descreve a fatura que o comercializador emite como a soma de três parcelas1.

A primeira é a parcela de energia. É o tarifário do Comercializador de Eletricidade para a Mobilidade Elétrica, o CEME, que é a empresa com quem tem contrato. Dentro dela já estão as tarifas de acesso às redes de energia elétrica e o Imposto Especial sobre o Consumo de Energia Elétrica, que a MOBI.E situa em 0,001 € por kWh no Continente ao abrigo da Portaria n.º 320-D/2011. É por isso que não faz sentido somar esses valores por fora: já estão dentro do preço por kWh anunciado.

A segunda é a parcela de utilização do posto. Corresponde ao tarifário dos Operadores de Pontos de Carregamento, os OPC, «relativo ao serviço de disponibilização do posto de carregamento». O operador é o dono do equipamento e é uma empresa distinta do comercializador. Esta parcela é cobrada na fatura do comercializador e depois transferida para o operador.

A terceira são os impostos, e sobre estes a MOBI.E não deixa margem para interpretações: «O Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA), atualmente, é de 23 % no Continente, 22 % na Madeira e 16 % nos Açores, e é aplicado em toda a fatura»1. A taxa do Continente é a taxa normal do artigo 18.º n.º 1 alínea c) do Código do IVA, e as taxas mais baixas das regiões autónomas existem porque o n.º 3 do mesmo artigo permite às Assembleias Legislativas dos Açores e da Madeira «fixar taxas diminuídas do IVA»3.

O achado: o mesmo kWh é cobrado duas vezes, com dois nomes

Esta é a parte que resolve o mistério, e é a própria MOBI.E que a escreve, nas suas perguntas frequentes, a propósito das componentes que um operador pode combinar2:

De salientar que a componente do custo por unidade de energia corresponde a um serviço (de utilização do ponto) e não ao fornecimento de eletricidade, que é sempre responsabilidade dos Comercializadores.

Leia devagar. O operador do posto também pode cobrar em euros por kWh. Mas o que ele está a vender nessa unidade não é eletricidade, é o direito de usar o equipamento. Por isso os dois valores somam-se, em vez de um substituir o outro.

O condutor vê «0,22 €/kWh» afixado, multiplica pelos 36 kWh de que precisa, chega a 7,92 € e sai descansado. A fatura acrescenta-lhe a componente por kWh do operador, a componente por minuto, uma eventual tarifa de ativação, e aplica IVA a tudo isso. Não há nada de irregular nisto: é a estrutura do preço, e está publicada. Só não está publicada em nenhum sítio onde se leia antes de carregar.

As três componentes da tarifa do operador

A MOBI.E enumera-as e diz que o operador pode «combinar uma, duas ou três destas componentes»2.

ComponenteUnidadeO que faz ao preço
Tarifa de ativação€ por carregamentoFixa. Penaliza desproporcionalmente as cargas pequenas
Custo por tempo€ por minutoDepende do seu carro, não só do posto
Custo por energia€ por kWhSoma-se ao preço da energia do comercializador

Acrescenta ainda que as tarifas dos operadores «podem variar ao longo do dia, ou dentro do mesmo posto serem diferentes em função da potência dos pontos de carregamento», e que os operadores «são livres de estabelecer as tarifas OPC que entenderem». Não existe, portanto, um preço nacional do carregamento, e qualquer artigo que lhe dê um está a dar-lhe uma média que não é a sua.

A componente por minuto faz do seu carro um fator de custo

Esta é a componente que produz as maiores surpresas, porque não depende do que leva mas do tempo que demora a levá-lo.

Cada modelo tem um limite próprio de potência que aceita, em corrente alternada e em corrente contínua, e esse limite é do carro, não do poste. Um carro limitado a 7,4 kW ligado a um poste de 22 kW não carrega a 22 kW: carrega a 7,4 kW, e ocupa o posto cerca de três vezes mais tempo para levar exatamente a mesma energia. Se o operador cobrar por minuto, esse condutor paga cerca de três vezes essa componente do que paga o condutor ao lado, pela mesma eletricidade.

Daí duas consequências práticas. A primeira é que vale a pena saber a que potência o seu carro aceita carregar antes de escolher um posto caro por ser rápido. A segunda é que, havendo componente por minuto, deixar o carro ligado depois de terminar custa dinheiro sem lhe dar energia nenhuma.

Há ainda um pormenor técnico que joga no mesmo sentido: acima de cerca de 80 % de carga a potência cai bastante, porque a bateria a limita. Uma sessão até aos 100 % demora muito mais do que a proporção sugere, e com componente por minuto os últimos 20 % podem custar quase tanto como os primeiros 60 %. É a razão pela qual, em viagem, carregar dos 20 % aos 80 % é quase sempre a decisão mais barata.

A conta feita, com números

Tome um carro com 60 kWh de bateria, carregado dos 20 % aos 80 %. São 36 kWh, não 60, porque só se paga a fatia que entra. Num posto rápido a 50 kW isso demora cerca de 43 minutos. Suponha que o posto mostra energia a 0,22 €/kWh, uma tarifa de operador de 0,30 €/kWh e mais 0,08 €/minuto, sem tarifa de ativação.

Linha da faturaValor
Parcela de energia (36 kWh a 0,22 €)7,92 €
Parcela do posto, por energia (36 kWh a 0,30 €)10,80 €
Parcela do posto, por tempo (43,2 min a 0,08 €)3,46 €
Subtotal sem IVA22,18 €
IVA a 23 % sobre toda a fatura5,10 €
Total27,28 €

Divididos pelos 36 kWh, são 0,758 € por kWh, ou seja 3,44 vezes o preço da energia que estava afixado. A mesma carga feita em casa, a 0,18 €/kWh com IVA, custaria 6,48 €: uma diferença de 20,80 € numa única sessão.

Convertido em distância, com um consumo de 17 kWh/100 km, são 12,88 € por 100 km no posto contra 3,06 € por 100 km em casa. Guarde a ordem de grandeza, porque é ela que faz a decisão: 12,88 € por 100 km é mais do que um carro a gasolina que faça 6 litros aos 100 a 1,80 € por litro, que gastaria 10,80 €.

A conclusão não é que o carro elétrico é caro. É que a poupança de um carro elétrico está quase toda no sítio onde carrega. Quem carrega em casa paga cerca de um terço do combustível equivalente; quem depende exclusivamente de postos rápidos pode pagar mais do que pagava antes.

Em casa a conta é outra

Em casa não há operador de posto, não há componente por minuto e não há tarifa de ativação. Há o seu contrato de eletricidade e o preço por kWh que já paga por tudo o resto, pelo que a conta é uma multiplicação.

Duas ressalvas honestas. A primeira é que o contador conta a energia que sai da parede e a bateria guarda menos do que isso: há perdas no carregamento, sobretudo em corrente alternada, pelo que o custo real por kWh útil é ligeiramente superior ao que qualquer conta simples indica. A segunda é que a eletricidade doméstica em Portugal tem uma taxa reduzida de IVA sobre uma parte do consumo mensal em contratos de potência baixa, mas essa parte é atribuída ao consumo total da casa e não ao carro, pelo que não é derivável dos dados de um carregamento. Preferimos explicá-la a aproximá-la.

As redes que não estão ligadas à MOBI.E

Tudo o que foi dito acima descreve a rede MOBI.E. A própria MOBI.E descreve à parte o modelo das redes não conectadas, que é diferente1: pode haver uma tarifa de fidelização periódica, paga antecipadamente, que dá acesso a condições mais vantajosas; a energia e a utilização do posto aparecem agregadas numa parcela só, que pode ser cobrada em kWh, em minutos, por sessão ou numa mistura; e acresce uma tarifa do prestador de serviços de mobilidade elétrica. Se carrega numa rede dessas, a lógica de somar as parcelas mantém-se, mas os nomes e o número de linhas mudam.

O que fazer com isto

Antes de carregar, leia no posto ou na aplicação duas coisas: a tarifa do operador, incluindo se tem componente por minuto ou tarifa de ativação, e o preço da energia do seu comercializador. A MOBI.E disponibiliza a consulta posto a posto na página «Encontrar Posto», e recorda que «o tarifário desta parcela está sempre publicitado no posto»2.

Depois faça a conta com os seus números na calculadora de custo de carregamento, que devolve o total, o preço efetivo por kWh e o custo por 100 km. Para fechar a comparação com o carro que tinha antes, o outro lado faz-se na calculadora de custo de combustível.

Erros comuns

  • Multiplicar os kWh pelo preço da energia afixado

    Esse preço é apenas a parcela de energia, a que o comercializador vende. Falta a parcela de utilização do posto, que o operador cobra e que pode ter componentes por kWh, por minuto e por carregamento, e falta o IVA, que incide sobre a soma das duas. No exemplo deste artigo essa conta de cabeça dá 7,92 € e a fatura dá 27,28 €.

  • Assumir que o IVA só se aplica à eletricidade

    A MOBI.E escreve que o IVA «é aplicado em toda a fatura», o que inclui o serviço do posto. Como as tarifas afixadas são apresentadas sem IVA, é uma parte do preço que só aparece no fim. No exemplo são 5,10 €, dos quais quase dois terços incidem sobre a parcela do posto.

  • Achar que o preço depende só do posto

    Depende também do carro, quando há componente por minuto. Cada modelo tem um limite de potência que aceita: um carro limitado a 7,4 kW ligado a um poste de 22 kW ocupa o posto cerca de três vezes mais tempo para levar a mesma energia, e paga cerca de três vezes essa componente.

  • Somar o imposto sobre a eletricidade por fora

    O Imposto Especial sobre o Consumo de Energia Elétrica, que a MOBI.E situa em 0,001 € por kWh no Continente, já está dentro do preço por kWh que o comercializador anuncia, tal como as tarifas de acesso às redes. Contá-lo outra vez seria tão errado como esquecê-lo.

  • Comparar o custo em casa com o custo no posto sem o dizer

    São duas realidades de preço muito diferentes e convém não misturar. Quem carrega quase sempre em casa e ocasionalmente em viagem tem um custo médio próximo do de casa; quem não tem lugar para carregar e depende de postos rápidos tem um custo por 100 km que pode ultrapassar o de um carro a gasolina equivalente.

Perguntas frequentes

Quanto custa carregar um carro elétrico em Portugal?
Depende sobretudo de onde carrega. Em casa paga apenas o preço por kWh do seu contrato: uma carga de 36 kWh a 0,18 €/kWh custa 6,48 €. Num posto público da rede MOBI.E paga a parcela de energia do comercializador mais a parcela de utilização do posto do operador, e o IVA incide sobre as duas: a mesma carga de 36 kWh pode custar 27,28 €. Como as tarifas dos operadores variam de posto para posto, a única forma honesta de responder é fazer a conta com os valores afixados no posto onde vai carregar.
Porque é que paguei muito mais do que o preço por kWh afixado?
Porque esse preço é, quase sempre, apenas a parcela de energia. A MOBI.E explica que o operador do posto cobra a sua própria tarifa, que pode combinar um custo fixo por carregamento, um custo por minuto e um custo por kWh, e diz expressamente que a componente por kWh do operador «corresponde a um serviço (de utilização do ponto) e não ao fornecimento de eletricidade». Depois o IVA incide sobre a fatura toda. Somadas as duas parcelas e o imposto, chegar a um preço efetivo três vezes superior ao afixado é perfeitamente normal.
Quem é o CEME e quem é o OPC?
O CEME é o Comercializador de Eletricidade para a Mobilidade Elétrica, a empresa com quem tem contrato, que lhe vende a energia e emite a fatura. O OPC é o Operador de Ponto de Carregamento, a empresa dona do posto, que cobra pelo serviço de o disponibilizar. São entidades distintas e o modelo português é interoperável, o que significa que pode usar postos de qualquer operador com o contrato de um único comercializador. A parcela do operador é incluída na fatura do comercializador e depois transferida para o operador.
Carregar em casa é mesmo muito mais barato?
Em regra sim, e por uma margem grande, porque em casa não há tarifa de operador, não há componente por minuto e não há tarifa de ativação: paga uma multiplicação simples pelo preço do seu contrato. No exemplo deste artigo a mesma carga custa 6,48 € em casa e 27,28 € num posto rápido. Duas notas honestas: há perdas no carregamento, sobretudo em corrente alternada, pelo que a bateria recebe menos do que o contador marca, e carregar em casa exige tempo e muitas vezes um carregador instalado.
O que é a tarifa de ativação?
É um custo fixo por carregamento, independente da energia que leve, e é uma das três componentes que a MOBI.E enumera na tarifa dos operadores. Nem todos os postos a cobram. Quando existe, penaliza sobretudo as sessões curtas: uma tarifa de ativação de 1,50 € numa carga de 6 kWh acrescenta 0,25 € a cada kWh, enquanto na mesma carga de 36 kWh acrescenta apenas 0,04 €.
Um carro elétrico paga IUC e ISV?
Os ligeiros de passageiros exclusivamente elétricos estão isentos de Imposto sobre Veículos na matrícula, e o Imposto Único de Circulação é substancialmente mais favorável, porque as tabelas assentam na cilindrada e nas emissões de CO₂. Não fazem parte do custo de carregamento, mas fazem parte do custo de ter o carro, e têm calculadoras próprias neste site.
Vale a pena mudar para elétrico só pelo custo da energia?
A resposta depende quase inteiramente de onde vai carregar, e é por isso que não damos uma resposta única. Com carregamento em casa, o custo por 100 km fica tipicamente numa fração do de um carro a combustível equivalente. Dependendo apenas de postos rápidos, o custo por 100 km pode ficar acima do de um carro a gasolina. Faça as duas contas com os seus números antes de decidir: a calculadora desta página dá o custo por 100 km elétrico e a calculadora de custo de combustível dá o outro lado.

Fontes

  1. 1.Custo do Carregamento: as parcelas que compõem a fatura · MOBI.E, gestor da rede de mobilidade elétrica · consultado a 31/08/2026
  2. 2.Perguntas frequentes: como se estrutura a tarifa do operador do posto · MOBI.E, gestor da rede de mobilidade elétrica · consultado a 31/08/2026
  3. 3.Artigo 18.º do Código do IVA: taxas do imposto · Autoridade Tributária e Aduaneira · consultado a 31/08/2026

Autor / Revisto por

Autor

Thorben Rasmus Idel

Co-founder & writer

Co-founder of Calculadora Capital and the writer behind the methodology on every calculator and article. An entrepreneur and active investor, Thorben founded Idel Versandhandel GmbH, an international trading company operating across 16 countries, and invests across stocks, ETFs and cryptocurrency. He writes the methodology and verifies the math behind each page, drawing on hands-on business and investing experience to keep the tools and explanations grounded in how money, markets and taxes actually work for everyday people in Portugal.

Revisto por

Nahar Geva

Co-founder & reviewer

Co-founder of Calculadora Capital and the independent reviewer behind every calculator and article. An entrepreneur and active investor, Nahar brings a data- and product-driven mindset together with hands-on experience in the markets, investing across stocks and ETFs as well as cryptocurrency and other digital assets, alongside broader personal finance and real estate. On each page Nahar reviews the methodology and double-checks the math and figures, pressure-testing how the tools and explanations hold up against the way money, markets and taxes actually work for everyday investors.

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